Ao assinar a MP que proíbe as apostas online, presidente comparou as bets ao crack e a um câncer, mas foi ele quem sancionou em 2023 a lei que regulamentou o setor e legalizou o cassino online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou as bets ao começo do crack no Brasil e a um câncer nesta sexta-feira (25), no ato em São Paulo em que assinou a medida provisória que proíbe as apostas online no país. “Esse país que era contra o cassino, contra a briga de galo, contra a rinha, contra um monte de coisa. Esse país trouxe o cassino para dentro de casa”, discursou. Ele só não lembrou que quem sancionou a lei que legalizou o cassino online, em dezembro de 2023, foi ele mesmo.
“O cassino está na cozinha, está na sala. O cassino está com o aposentado, está com a criança de 13, 14 anos, pega o cartão do pai e faz o que quiser”, continuou o presidente, a nove dias do primeiro turno, em que tenta a reeleição. Pra justificar a proibição, apelou pra metáfora médica: segundo Lula, as bets são como um câncer, e “ou a gente tira o tumor, ou esse tumor vai matar a gente”.
Lula contou que decidiu agir depois de uma cena no Palácio da Alvorada. “Eu estava discutindo lá em casa, com os ministros, lá no Alvorada, e por coincidência, passaram dois jovens”, relatou. Ele parou os dois e perguntou se jogavam e se estavam devendo. Um deles devia R$ 10 mil e ganhava R$ 4 mil por mês. O outro também estava endividado, mas já tinha conseguido parar de apostar. “Aquilo me deu uma vontade de conversar com mais gente”, disse. O presidente então pediu que fossem chamadas oito pessoas endividadas com as bets pra uma reunião.
“Tem coisa que é estarrecedora, me lembrou um pouco o começo do crack nesse país”, afirmou. Lula lembrou das mães que o procuravam em atos públicos contando que os filhos tinham vendido o botijão de gás, a comida da prateleira e até o colchão pra comprar a droga. Com as apostas, segundo ele, acontece “exatamente a mesma coisa, num grau muito maior, porque é digital”.
Entre os casos que ouviu, Lula citou o de um pequeno empresário que chegou a uma dívida de R$ 2,2 milhões. “Vendeu o comércio dele, vendeu coisas do pai dele, mentiu para o compadre, mentiu para a mulher, mentiu para todo mundo, até que ele tomou consciência e está se tratando”, contou. Segundo o presidente, o homem fez 1.300 Pix pra mesma plataforma em dois meses, “e ninguém alertou que ele não podia fazer aquilo”. Outra história foi a de uma mulher de 27 anos, dona de uma loja no interior de Minas Gerais, que deve R$ 630 mil. “Jamais vai poder pagar, jamais”, disse.
O presidente também relatou ter conversado com mulheres que tentaram tirar a própria vida e com uma mãe que perdeu o filho de 26 anos por causa das dívidas de jogo. “É uma coisa muito séria, que está afetando a saúde mental de milhões e milhões de pessoas inocentes, de pessoas pobres, que jogam para ver se conseguem comprar o pão no dia seguinte”, afirmou.
Lula ainda atacou a publicidade das casas de apostas. Ele citou uma propaganda em que uma mulher não tem dinheiro pra pagar a conta no supermercado, sai, aposta, ganha e volta. “Isso é mentir, descaradamente, para induzir as pessoas humildes e mais necessitadas”, disse. A indignação contrasta com o histórico do governo. Segundo a Folha de S.Paulo, durante a regulamentação o Planalto se articulou pra derrubar limites à publicidade das bets, mandou o projeto ao Congresso com pedido de urgência e trabalhou pra incluir os caça-níqueis online, como o Tigrinho, nas regras.
O discurso também jogou parte da culpa no Banco Central, que, segundo Lula, “não controla esses Pix para jogo”. Só que a fiscalização das bets sempre esteve com a Secretaria de Prêmios e Apostas, criada pelo próprio governo petista dentro do Ministério da Fazenda. E o governo arrecadou com o setor que agora compara ao crack. Desde 2024, foram R$ 2,55 bilhões com a venda de licenças de R$ 30 milhões cada e cerca de R$ 17 bilhões em impostos, quase R$ 20 bilhões no total, como o Jornal Razão mostrou mais cedo.
Antes de falar das apostas, Lula defendeu limitar a quantidade de cartões de crédito por pessoa. “Tem gente, eu conversei com gente que tá devendo nas bets, quatro cartões de crédito no mesmo banco e pagando na mesma plataforma. Ou seja, virou uma espécie de uma jogatina sem controle”, disse.
Na prática, a MP já está valendo e proíbe novos depósitos nas plataformas. O apostador pode sacar o saldo até as 23h59 de 5 de outubro, um dia depois da eleição. A partir do dia 6, ficam proibidas a operação e a publicidade das bets, e entre 9 e 14 de outubro os bancos devolvem o dinheiro que sobrou nas contas. Valores que ficarem 180 dias sem movimentação vão pra Caixa. O governo também mandou ao Congresso um projeto de lei que prevê até seis anos de prisão pra quem operar apostas ilegais. A MP precisa ser aprovada em até 120 dias, senão perde a validade.
A oposição não comprou o discurso. Mais cedo, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, chamou Lula de “pai do Tigrinho” e acusou o presidente de vender a solução pra um problema que ele mesmo criou. Uma pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta semana mostrou que 75% dos brasileiros defendem a proibição das bets. O primeiro turno acontece em 4 de outubro.


