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Toffoli joga em Moraes o convite para a degustação de Macallan com Vorcaro em Londres

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Em nota à revista piauí, ministro do STF nega amizade e pagamentos de Vorcaro e diz que só foi ao evento em Londres bancado pelo Banco Master porque o colega de Corte o convidou

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, respondeu à revista piauí atribuindo ao colega de Corte Alexandre de Moraes o convite que o levou ao evento de Londres bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A nota foi divulgada pelo gabinete antes da publicação da reportagem, na noite de quinta-feira (10).

No texto, o gabinete afirma que Toffoli “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima” com Vorcaro e nega que o ministro tenha recebido qualquer valor do banqueiro ou do cunhado dele, Fabiano Zettel. Sobre a viagem, a nota diz que “sua participação no referido evento de Londres se deu a convite do colega de Corte Ministro Alexandre de Moraes”.

A resposta chega junto com a reportagem mais pesada publicada até agora sobre a relação entre os dois. Segundo a piauí, a Polícia Federal produziu um relatório de 196 páginas sobre os vínculos entre Toffoli e Vorcaro que ficou cerca de sete meses sob sigilo no Supremo. Nele, a PF trabalha com a hipótese de que o ministro seria o beneficiário final, ou proprietário de fato, do fundo Arleen.

O fundo foi sócio do resort Tayayá, no Paraná, empreendimento no qual a Maridt Participações, empresa da família Toffoli da qual o ministro é sócio ao lado dos irmãos, tinha participação. O Arleen recebeu cerca de R$ 35 milhões de Vorcaro e, segundo a reportagem, transferiu depois os ativos para uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. O relatório cita mensagens em que o banqueiro trata os pagamentos ao fundo como compromisso urgente e menciona Toffoli, registra 12 encontros entre os dois, em Brasília, São Paulo e Londres, e levanta a suspeita de influência em voto do ministro sobre precatórios do setor sucroalcooleiro, papel que o Master carregava em volume bilionário no balanço.

O evento de Londres citado na nota não foi um jantar qualquer. Em abril de 2024, o Banco Master financiou o I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado na capital britânica. Nos dados extraídos do celular de Vorcaro há relatórios de custos do evento com a contratação de um serviço de degustação de uísque Macallan no George Club, clube privado em Mayfair, uma das regiões mais caras de Londres, registrada por US$ 640.831,88, cerca de R$ 3,3 milhões na cotação da época.

A degustação ocorreu em 25 de abril de 2024, durou duas horas e reuniu cerca de 40 pessoas, que provaram diferentes rótulos e receberam charutos. Ao final, cada convidado saiu com uma garrafa de edição especial do uísque. O próprio anfitrião comemorou a plateia para a então namorada: “Todos os ministros do Brasil, do STF, STJ etc. E euzinho discursando”.

A lista de quem esteve em Londres é o que transformou uma viagem de fórum jurídico em caso de Estado. Além de Moraes e Toffoli, participaram o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o ministro Gilmar Mendes, o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o presidente da Câmara, Hugo Motta, e ministros do Superior Tribunal de Justiça. Quem investiga, quem denuncia e quem julga, todos na mesma sala, por conta do mesmo homem.

A versão que Toffoli agora apresenta tem apoio no próprio relatório da PF. Segundo a piauí, o documento aponta que Moraes ajudou a organizar o evento: sugeriu convidados, fez convites e aprovou o cronograma. Na sessão fechada do STF de 12 de fevereiro de 2026, Moraes sustentou que a presença de Toffoli e das demais autoridades não representava impedimento para nenhum deles e afirmou: “Nesse encontro, vários estávamos lá. Eu estava lá. Andrei Rodrigues estava lá. Depois fomos todos juntos a um pub, tomamos Macallan”. Moraes não disse que havia convidado ninguém. Toffoli agora diz que foi convidado por ele.

Aquela sessão de fevereiro terminou com Toffoli fora da relatoria dos inquéritos do Banco Master, depois que a PF entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório sobre a proximidade entre o ministro e o banqueiro. Fachin reuniu os ministros a portas fechadas, aceitou a saída e recusou declará-lo suspeito. A relatoria foi parar com André Mendonça, que em 1º de setembro tirou o sigilo do relatório que aponta Moraes como interlocutor de Vorcaro e detonou a crise atual. O relatório sobre Toffoli, o fundo e a offshore, mais pesado, tinha ficado na gaveta.

A reportagem e a nota vieram à tona na mesma noite em que, a pedido de Fachin, Mendonça derrubou o sigilo da investigação principal do caso Master e de dezenas de procedimentos ligados a ela, com ressalva apenas para diligências cujo sigilo seja imprescindível. O material foi remetido à Presidência e aos gabinetes de todos os ministros. O objetivo declarado é preparar a sessão plenária extraordinária de terça-feira (15), que vai analisar o relatório da PF sobre Moraes e o pedido de nulidade da Procuradoria-Geral da República.

Enquanto isso, a briga interna segue aberta. Depois que Mendonça levantou o sigilo das 218 páginas de 1º de setembro, veio à tona o contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Moraes revidou pedindo que Mendonça seja investigado por abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade. Gonet pediu a anulação de tudo. O prazo de cinco dias que Fachin deu para os dois se explicarem vence nesta sexta-feira (11).

Vorcaro está preso desde março. O rombo do Banco Master é estimado em cerca de R$ 47,3 bilhões, dos quais R$ 41 bilhões saíram do Fundo Garantidor de Crédito, no maior ressarcimento da história do FGC. A eleição é em outubro, e a essa altura já são quatro ministros do Supremo tocados de algum modo pelo caso: Toffoli, Moraes, Nunes Marques e Fux.

Fonte Original | Jornal Razão